River Ganga Foundation
Guerra

Reunião em Ojai, Califórnia
28 de setembro de 2001

Hoje de manhã li uma coisa que o Bill Clinton disse quando era presidente, e que atraiu a minha atenção. Ele disse que o mundo agora está dividido entre os que querem a paz e os que querem a guerra. Mas é claro que esta idéia é simplesmente uma nova guerra, a guerra entre as idéias de paz e de guerra.

Nas duas últimas semanas vimos a rapidez com que surgiram as duas facções com idéias opostas acerca do que deve ser feito. Deveríamos matar todos eles? Não, deveríamos ter paz. Não, deveríamos matar todos eles.

Neste período desde que começamos a ter reuniões aqui em Ojai , muitas vezes conversamos sobre como é fundamental a paz de que falamos aqui. Esta paz não tem absolutamente nada a ver com guerra ou paz. A guerra, assim como a resistência à guerra, são constantes. Isto não é novidade. A atrocidade não é nenhuma novidade. O homicídio, o derramamento de sangue e o massacre de inocentes não são nada de novo. Se são alguma coisa, eles são a mesma velha história.

Conversei com outras pessoas que também tiveram esta mesma experiência de uma tristeza profunda. Na minha experiência, esta é a tristeza profunda que está sempre presente diante da contínua e interminável determinação humana de livrar-se ou apegar-se a objetos. A determinação humana de matar ou aprisionar. A determinação humana de saber o que é certo e tomar uma atitude em relação a isso, de saber o que é o bem e combater o mal. Foi isso que aconteceu. Alguém que sabia o que era correto tomou uma atitude. Agora há um monte de outros alguéns que sabem o que é realmente correto e estão dispostos agir em relação a isso. E surgiu um outro grupo de alguéns que sabem que cometer um ato de violência contra o que aconteceu é errado. Eles sabem o que é certo e estão agindo a partir desta idéia.

Minha sugestão, o convite de Ramana, e também o convite de Jesus Cristo é não resistir. Ficar quieto. Deixar que as coisas sejam como são: a guerra, a violência, o terrorismo, o assassinato e o massacre de inocentes ocorrem aqui. [John aponta para o próprio peito]. Em nenhuma outra parte. Bem aqui. Ocorrem no primeiro pensamento que diz: "Isso é errado, isso deve parar." Este é o começo da guerra. O começo da guerra está nesse primeiro movimento que consiste em resistir ao que você não gosta em você mesmo. O que você imagina que não é bem-vindo em seu coração. A guerra termina no instante em que você para a guerra e reconhece que tudo isso é você. Tudo é você. E nem estou falando do mundo e sua loucura. Isso também é você. Estou falando do relacionamento do indivíduo com o redemoinho incessante de emoções positivas e negativas, de idéias positivas e negativas, de atividades positivas e negativas. E a incessante determinação de garantir que o que acontece aqui é certo, verdadeiro e bom. Esta é a guerra. Esta é a guerra que arremessou aqueles aviões contra o World Trade Center. Esta é a guerra que prepara enormes planos que levarão ao massacre de mais inocentes. Esta é a guerra por trás do surgimento da polarização entre guerra e paz: "Eles estão errados. Eles querem guerra." "Não. Vocês estão errados. Vocês querem paz." A paz é absoluta. A paz é incondicional.

Em varias ocasiões, o Dalai Lama disse que a invasão do Tibet pelo exército chinês foi uma das maiores dádivas recebidas pelo povo tibetano. Ele repetiu isso várias vezes, e disse que o Exército Vermelho é o maior mestre do Tibet. E ele se curva em gratidão a isso. Da mesma forma, a loucura de 11 de setembro é uma enorme dádiva. Nas horas e dias imediatamente depois do atentado, vi que tudo tinha parado. Ninguém podia fazer nada com aquilo. Era grande demais, inesperado demais, repentino demais. Não se podia fazer nada.

Agora, é claro, muito está sendo feito. Mas você não precisa fazer a mesma coisa. Não estou dizendo que não se deva fazer nada. Não estou de modo algum dizendo que seu comportamento deva seguir um padrão de indiferença ou desinteresse. Não estou dizendo que seu comportamento deva mudar de maneira alguma. Se o papel que você desempenha é o papel de alguém furioso em busca de retaliação e vingança, que assim seja. Isso não tem nada a ver com você. Se o seu papel é o de um agitador que luta para manter a paz mundial, que assim seja. Isso não tem nada a ver com você.

O convite é muito menos que isso, não tem nada a ver com isso. Não tem nada a ver com coisa alguma em seu comportamento. Não tem nada a ver nem mesmo com qualquer coisa no mundo: mudar, permanecer o mesmo ou ser substituído. Este convite tem a ver com a possibilidade sempre presente de parar, neste momento, e descobrir a verdade de quem você é, a sua verdadeira identidade, que é intocada e intocável, que é o campo, o terreno e a luz nos quais o terrorismo e o pacifismo igualmente vão e vêm. Quando você descobrir isso, por um segundo que seja, você jamais poderá ser enganado completamente outra vez. E então, se você for uma pessoa ativa, quem se importa? Se você for uma pessoa inativa, quem liga? Esta é a paz que está para além da compreensão. Esta é a paz em que o conflito, a carnificina, o terror, a beleza, a glória e a maravilha do mundo são igualmente bem-vindos.

Jesus disse: "Não resistais ao mal." Por que será que não o escutamos, neste país tão cristão? Por que, dentre todas as coisas que Jesus disse, nossa reação a este ensinamento é: "Epa, espere um instante. Isso é radical demais. Isso é extremo demais."

Não somos terroristas; ou somos terroristas e pacifistas. Como podemos até mesmo falar sobre isso? Como é possível até discutir isso? Se somos pacifistas e terroristas, e temos ambos os aspectos dentro de nós, então o que somos quando nos reunimos aqui e falamos sobre isso?

Isto é bom, porque este é realmente o cerne da questão: "Quem sou eu?" Se estiver agindo como terrorista, sou um terrorista? Se for vitimado pelos terroristas, sou uma vítima? Se estiver agindo como pacifista, sou um pacifista? Se participar de um grupo espiritual, sou uma pessoa espiritualizada? Será mesmo? De verdade? Isto está muito próximo do cerne da questão. Você pode se surpreender sendo um terrorista num dia e um pacifista no dia seguinte. Eu tive esta experiência. Será que isso sou eu? Será que isso é você? Será que é você que está falando sobre esses assuntos? Quem está falando? Em que se baseia a suposição de que somos o que fazemos, de que somos o que fazem estas personagens? Em que se baseia esta idéia? Quem disse isso?

É por isso que a pergunta "Quem sou eu?", este ensinamento proscrito que foi roubado por Ramana, requer a disposição de investigar tudo que eu suponho que sou. A disposição de ver a que estou me referindo quando digo "eu". O que você mencionou é um modo de vida. Houve uma época em que eu era criança e agora sou um homem de uma certa idade. Houve uma época em que fui um prisioneiro, e agora sou outra coisa. Será que eu mudei? Será que você mudou? O que é que mudou? O que não muda?

É muito difícil falar a partir de um ponto de vista qualquer, porque é muito difícil achar um ponto de vista que permaneça constante. Portanto, o convite é para ver o que acontece se não adotarmos nenhum ponto de vista. Porque, em verdade, nada existe a não ser o que criamos. Realmente não existe qualquer perspectiva a partir da qual possamos olhar para o mundo "lá fora". O ponto de vista é um produto dos sentidos, e também o fato de que parece estar olhando "para fora". Mas nós sabemos, em nossa experiência pessoal, que um ponto de vista não se mantém constante, a menos que eu adote uma definição rígida de mim mesmo. A menos que eu me defina de maneira totalmente rígida e me torne realmente violento e fascista, vigiando constantemente tudo que digo, cada pensamento que surge, cada emoção que aparece, cada reação que tenho... A menos que haja um constante monitoramento, uma observação incessante, para garantir que nada vai abalar o meu ponto de vista. E essa, é claro, é a guerra. Essa é a guerra que arremessou aqueles aviões contra o World Trade Center. Não deixe que ninguém lhe diga o contrário. Todo o resto serve apenas para apoiar esta guerra. Toda religião, política, filosofia, todas as idéias elevadas servem apenas para apoiar essa guerra. É a mesma guerra, mesmo que eu me defina como um pacifista. É a mesma guerra, apenas o inimigo é outro.

Não há como se falar disso. Não existe um ponto de vista estável. Quem sabe se esta não é a dádiva oferecida a este país com este atentado? Um abalo, uma espécie de terremoto. Obviamente todos aqui na Califórnia já estiveram em um terremoto. Meu Deus, não se pode nem mesmo confiar na terra! O próprio chão deixa de ser confiável.

Esta é a verdade da existência e do mundo: não há nada em que se possa confiar. Não há segurança em lugar algum. Não há nenhum ponto de vista que lhe permita estar seguro. Não há absolutamente nada que você possa fazer para mudar a personalidade que você chama de "eu". Ela mudará constantemente. O melhor que você pode fazer é vigiá-la o tempo todo. Isso não é maneira de viver a sua vida! Eu cansei disso. E prometo que, se você parar a guerra dentro de você, não encontrará inimigos em lugar algum.

É para isso que nos reunimos. No reunimos para indicar, para encorajar uns aos outros a descobrir esta paz absoluta e incondicional que não se importa se algo aparece ou desaparece. Esta paz que acolhe a tristeza mais profunda, que acolhe a tristeza mais profunda da mesma maneira que acolhe a bem-aventurança. E esta paz é você. Isso não é teoria, nem filosofia. Também não é espiritual. Isso é o seu próprio ser: uma paz livre, intocada, intocável, clara e consciente.

© 2001 John Sherman. Todos os direitos reservados.

Traduzido do inglês por Darshano Swamdarsh.

Tradução revista por Carla Sherman.

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The only thing that is certain is you, but nothing can be said that is at all helpful in describing you or explaining you, or even pointing to you. You are here. The only certainty there is, is that of your presence. I am not speaking of the sense of self, although the focusing of attention on the sense of self, or the I am, or beingness, or by whatever name it may be called, will in fact result in the vanishing of the sensational experience that is the sense of self. In the moment of its vanishing, what remains is you. That's the incredible value and utility of Ramana's suggestion that we look at ego and grab it by the throat. In so doing, that experience vanishes and what remains is you. You, face to face with you.
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